O dólar americano registrou sua pior semana em oito meses, mesmo após o alívio nos mercados provocado pelo recuo do presidente Donald Trump em relação a novas tarifas comerciais. Enquanto ações e Treasuries conseguiram se recuperar parcialmente das mínimas recentes, a moeda dos Estados Unidos continuou pressionada, reforçando a percepção de que investidores globais começam a diversificar para fora dos ativos americanos.
O movimento acende um alerta importante para investidores, especialmente os que mantêm exposição concentrada em dólar ou em ativos exclusivamente domésticos.
O ICE U.S. Dollar Index (DXY), que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, caiu 1,9% na semana, marcando o pior desempenho desde maio do ano passado. No mesmo período, o S&P 500 recuou cerca de 0,4%, enquanto o Nasdaq ficou praticamente estável, segundo dados da FactSet .
Normalmente, momentos de maior aversão ao risco favorecem o dólar como ativo de proteção. Desta vez, porém, o comportamento foi diferente. Mesmo com a melhora no humor do mercado acionário, a moeda americana não reagiu.
Segundo analistas, isso reflete uma deterioração gradual da percepção internacional sobre a previsibilidade da política econômica dos EUA.
O estopim mais recente veio das sinalizações do presidente Trump. Após um forte estresse nos mercados, ele recuou de sua proposta de impor novas tarifas contra aliados europeus e apresentou um “framework de negociação” envolvendo a Groenlândia — território da Dinamarca que já havia sido alvo de declarações controversas.
Para Steve Englander, chefe global de pesquisa cambial do G-10 no Standard Chartered, essas atitudes ampliam o risco percebido pelos investidores.
“As tarifas de abril abriram uma nova dimensão — e nada amigável — da política comercial americana. O episódio da Groenlândia, mesmo que tenha sido parcialmente revertido, não estava no radar antes”, afirmou Englander .
O mercado passou a considerar que não se trata apenas de tarifas, mas de uma postura mais imprevisível da política externa e comercial dos Estados Unidos.
Wall Street também começou a precificar possíveis efeitos colaterais nas relações entre os EUA, Europa e Canadá. Esse tipo de tensão aumenta o incentivo à diversificação cambial, reduzindo a dependência do dólar como única moeda de reserva.
Esse movimento ajuda a explicar por que, mesmo com a recuperação das bolsas, o dólar seguiu pressionado.
Outro fator relevante foi o comportamento do iene japonês. O Banco do Japão manteve os juros inalterados, como esperado, mas o iene se valorizou cerca de 1,6%, diante de especulações de intervenção no mercado cambial.
Para Larry Hatheway, do Franklin Templeton Institute, eventos recentes estão mudando o equilíbrio global de moedas.
“Os acontecimentos das primeiras semanas do ano estão deslocando o pêndulo em direção a moedas estrangeiras mais fortes — e, por consequência, a um dólar mais fraco”, afirmou .
Alguns gestores acreditam que esse movimento está apenas começando. Peter Azzinaro, sócio da Agile Investment Management, avalia que o DXY pode continuar em trajetória de queda.
“Esperamos que o índice continue caindo e não nos surpreenderia vê-lo em 95 ainda este ano”, disse Azzinaro, lembrando que o índice estava próximo de 97,5 no fechamento da semana .
Segundo ele, o motor desse movimento é a diversificação global, com fluxos migrando para Europa, Ásia e mercados emergentes, após uma década de forte concentração nos Estados Unidos.
A leitura estrutural desse cenário vai além do curto prazo. Como ensina John Bogle, fundador da Vanguard, o investidor não deve tentar prever movimentos táticos de moedas, mas construir portfólios resilientes, diversificados e de baixo custo, capazes de atravessar diferentes ciclos econômicos.
Nesse contexto, a queda do dólar não é apenas um evento pontual, mas um lembrete de que concentração excessiva em um único país ou moeda aumenta o risco do portfólio.
Segundo Fábio Murad, CEO da SpaceMoney e criador do método Super ETF, movimentos como esse reforçam a importância de uma estratégia internacional bem estruturada:
“Quando o investidor concentra tudo em um único país ou moeda, ele fica refém de decisões políticas e ciclos que não controla. A diversificação global, via ETFs, permite reduzir esse risco estrutural e construir patrimônio em diferentes motores de crescimento do mundo.”
A combinação entre ETFs globais, exposição cambial balanceada e estratégias de renda, como Covered Call, cria um portfólio mais robusto para enfrentar períodos de instabilidade — seja com dólar forte ou fraco
A pior semana do dólar em oito meses, mesmo após o recuo de Trump em tarifas, revela algo mais profundo: o mercado global começa a questionar a centralidade absoluta dos EUA nos portfólios.
Para o investidor, a lição é clara:
não se trata de apostar contra o dólar, mas de não depender exclusivamente dele.


