Aproveitando a janela frondosa que se abriu para ativos globais, o PicPay captou US$ 500 milhões em seu IPO na Nasdaq, o primeiro de uma companhia brasileira desde o Nubank em dezembro de 2021.
A ação saiu a US$ 19 – no topo da faixa indicativa que começava em US$ 16 – e foi precificada a 12 vezes o lucro estimado para 2026.
A demanda pelos papéis superou a oferta em mais de 12 vezes, com o book atraindo cerca de 200 investidores globais, incluindo fundos dedicados a fintechs, tecnologia e mercados emergentes. Investidores brasileiros ficaram com apenas 15% da alocação.
O múltiplo ficou em linha com o do Inter (12x), mas como IPOs com este nível de demanda tendem a ter um ‘pop’ nos primeiros dias, o múltiplo final deve ser mais alto. O Nubank negocia a 18x.
A empresa nasce valendo US$ 2,6 bilhões post-money na Nasdaq, onde vai negociar sob o ticker PICS.
O PicPay capturou a atenção dos investidores por um modelo de negócios focado em crédito com garantias e produtos colateralizados, como crédito consignado e antecipação do saque-aniversário do FGTS. Cerca de 70% da originação da fintech nos últimos trimestres foram de créditos com garantia.
É um negócio mais semelhante ao do Banco Inter, já que o Nubank, outro peer usado nas comparações, trabalha quase integralmente com crédito unsecured.
Investidores que estudaram o caso notam que uma parte relevante do lucro da PicPay vem de uma inovação: o PIX Crédito em cartões de terceiros. Traduzindo: o cliente “toma emprestado” parte de seu limite no cartão de outro banco para fazer um pagamento usando o PicPay. O risco de crédito fica com o outro banco; o juro fica no PicPay. Entre os grandes players, só o PicPay oferece este produto.
Cerca de um terço dos clientes do Picpay tem principalidade: ou seja, sua principal relação bancária é com a fintech. Este cliente tipicamente gasta mais de 50% de sua renda mensal pagando suas contas e fazendo gastos pelo Picpay, o que permite à empresa conhecer o histórico do cliente.
Por isso, “o modelo do Picpay tem risco menor pois o cliente já está dentro de casa, é conhecido,” disse uma fonte próxima à companhia. “Já no crédito unsecured, por exemplo o cartão de crédito, tanto o risco quanto o yield são maiores. Por isso, os grandes bancos acabam não focando tanto no crédito colateralizado para não canibalizar esse negócio.”
Os peers globais do PicPay têm modelos diferentes.
Neobanks como o Chime (market cap de US$ 10 bi), a SoFi (US$ 32 bi) e a Revolut (fintech inglesa avaliada em cerca de US$ 75 bilhões) têm plataformas transacionais, com uma oferta ampla de serviços financeiros, mas não são necessariamente centrados em crédito.
Já as plataformas de buy now, pay later – como a Affirm (market cap de US$ 22 bi e a Klarna (US$ 18 bi) – operam essencialmente como players de crédito unsecured clean, competindo diretamente com o cartão de crédito tradicional.
Tanto o Chime quanto a Klarna fizeram IPOs no ano passado nos EUA.
O Chime negocia hoje a cerca de 50x o lucro ajustado para 2026, com o consenso apontando para um crescimento de lucro de cerca de 75% entre 2026 e 2027 e crescimento de receita em torno de 20% ao ano.
A Klarna também negocia 50 vezes o lucro de 2026, com crescimento de lucro estimado em cerca de 55% de 2026 para 2027 e crescimento de receita também próximo de 20% ao ano.
O sucesso da oferta é um milestone para o CEO Eduardo Chedid, um veterano do mercado de meios de pagamentos que foi CEO da Elo – a bandeira do Bradesco, BB e Caixa – e cuja carreira inclui seis anos na Cielo e 15 entre a Visa e a Credicard.
Os irmãos Batista, que controlam a PicPay por meio da J&F Investimentos, tocarão a campainha na abertura do pregão na Nasdaq amanhã. Eles ficarão com 71% do capital depois da oferta de hoje, mas detêm maior poder político por meio de suas ações Class A.
Os coordenadores da oferta foram o Citi (líder), Bank of America e Royal Bank of Canada (RBC).
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