Após anos criticando Jerome Powell, Donald Trump tem finalmente a chance de trocar o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). E ele escolheu um ex-diretor crítico da atual gestão e que passou os últimos tempos fazendo lobby pela sua nomeação.

O presidente americano anunciou nesta sexta-feira, 30 de janeiro, que escolheu Kevin Warsh para a presidência da autoridade monetária no lugar de Powell, cujo mandato termina em meados de maio. Seu nome ainda precisa ser aprovado no Senado, onde Trump conta com a maioria dos votos.

Warsh, 55 anos, serviu como diretor do Fed entre 2006 e 2011, desempenhando um papel crucial nos bastidores do resgate de Wall Street por Washington em 2008, segundo o jornal The Wall Street Journal (WSJ). Ao longo da carreira, ele construiu uma reputação de ser duro no combate à inflação e de crítico às medidas de injeção de liquidez por parte de bancos centrais.

Há mais de uma década tentando ser indicado para a presidência do Fed, Warsh desbancou nomes como Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca; Christopher Waller, diretor em exercício do Fed; e Rick Rieder, executivo da BlackRock.

Para isso, ele passou os últimos tempos trabalhando seu nome junto à administração Trump e criticando Powell e o Fed, para a alegria do presidente. Para ele, a instituição estava se desviando do caminho certo.

Apesar do histórico hawkish, observadores apontam que ele vem demonstrando mais alinhamento com Trump, que pressiona para que o Fed corte mais os juros. Em dezembro, numa indicação de que estava inclinado a apontar Warsh para a presidência do Fed, Trump disse que Warsh “acredita que devemos ter juros mais baixos”, de acordo com o WSJ.

Esse alinhamento vem num momento em que a independência do Fed é colocada à prova, diante da insistência de Trump para que a autoridade monetária acelere o corte dos juros. O presidente já deixou claro o que espera do próximo presidente do Fed: "Quem discordar de mim jamais será presidente do Fed!", escreveu Trump em uma publicação nas redes sociais em 23 de dezembro.

Trump está em pé de guerra com o Fed e Powell, apesar de tê-lo indicado para comandar a autoridade monetária em seu primeiro mandato, em 2018. Além das críticas públicas, chamando Powell de “idiota” e “teimoso”, Trump partiu para o ataque na Justiça.

No começo do mês, o Departamento de Justiça informou que abriu investigação criminal contra Jerome Powell para apurar o depoimento prestado ao Senado, em junho, sobre a reforma da sede do banco central, em Washington.

O governo acusa o Fed de fornecer informações incorretas ao Congresso sobre o aumento da estimativa de custo da obra, que passou de US$ 1,9 bilhão para US$ 2,5 bilhões. A autoridade monetária alega que a diferença decorre de custos reais de materiais, equipamentos, mão de obra e problemas imprevistos.

Antes disso, em agosto, Trump anunciou a demissão de Lisa Cook, diretora do Fed, sob acusação de fraude hipotecária, para tentar indicar alguém alinhado a ele. No mês seguinte, a Justiça reverteu a decisão.

A abertura do inquérito levou Powell a se posicionar contra a Casa Branca, algo raro na história de quase 113 anos do Fed. Em vídeo, ele disse que a investigação faz parte da campanha de Trump para pressionar por decisões favoráveis às suas políticas.

A independência do Fed é um pilar da economia americana. Criadas pelo Congresso, as salvaguardas impedem que um presidente interfira diretamente em decisões sobre juros — que têm impacto profundo na inflação, no emprego e na trajetória da economia.

Os sete membros do Conselho de Governadores, por exemplo, cumprem mandatos de 14 anos e não podem ser demitidos à vontade. A instituição foi desenhada para evitar alinhamentos partidários. O presidente do Fed coordena, mas não manda nos demais integrantes do Conselho - cada um dos sete membros tem um voto igual nas decisões. Mesmo com a nomeação de Warsh, a maioria dos assentos do Board continua ocupada por governadores indicados por administrações anteriores.

Para analistas, o episódio marca uma escalada sem precedentes na relação entre política e política monetária nos Estados Unidos. Se Trump conseguir moldar a liderança do Fed, o impacto pode ir além das taxas de juros: abre espaço para decisões guiadas por interesses políticos, com efeitos duradouros sobre credibilidade, inflação e estabilidade global.

Resta saber como Warsh vai navegar essa situação e garantir a credibilidade do Fed.

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