Por décadas, a juventude foi sinônimo de rebeldia progressista. Contestar significava abraçar pautas coletivas e enfrentar o conservadorismo. Os dados mais recePor décadas, a juventude foi sinônimo de rebeldia progressista. Contestar significava abraçar pautas coletivas e enfrentar o conservadorismo. Os dados mais rece

OPINIÃO. Por que cada vez mais jovens votam na direita

2026/02/08 11:10
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Por décadas, a juventude foi sinônimo de rebeldia progressista. Contestar significava abraçar pautas coletivas e enfrentar o conservadorismo. Os dados mais recentes sugerem que esse ciclo acabou. No Brasil e fora dele, a rebeldia mudou de lado.

Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de novembro mostra esse deslocamento: enquanto a esquerda ainda é majoritária entre os baby boomers (57%) e a Geração X (52%), o quadro muda rápido quando a idade cai. Entre a Geração Z, apenas 31% se identificam com a esquerda. Já 52% se declaram de direita ou centro-direita. Não é um detalhe marginal; é uma inversão histórica.

Esse movimento, porém, não é homogêneo. O dado mais revelador aponta para uma fratura ideológica de gênero. Entre os homens jovens, a direita já é dominante. Entre as mulheres, a esquerda ainda é hegemônica.

Esse padrão não é exclusivo do Brasil. Ele aparece também nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Coreia do Sul. Enquanto mulheres jovens tendem a buscar na política progressista uma forma de proteção contra retrocessos de direitos, muitos homens passaram a enxergar o discurso institucional das universidades, da imprensa e das grandes empresas como um sistema que não os representa mais.

Nas eleições presidenciais recentes da Coreia do Sul, a divisão foi quase absoluta: 58,7% dos homens na casa dos 20 anos votaram no candidato conservador, enquanto 58% das mulheres da mesma idade votaram no candidato liberal.

Como sugerem os cientistas políticos Pippa Norris e Ronald Inglehart, vivemos uma “reação cultural” (cultural backlash): quando valores progressistas se tornam a norma das instituições, aqueles que se sentem marginalizados por essa nova ética buscam refúgio em discursos de preservação, mérito e ordem. Não é nostalgia ideológica, e sim um desalinhamento entre promessas e a sensação térmica da vida real.

Houve um tempo em que ser de direita significava defender o establishment. Hoje é o inverso.

Para a Geração Z, as instituições que moldam o discurso público falam a gramática do progressismo. Nesse ambiente, adotar posições à direita virou uma forma de transgressão.

Essa mudança é rápida. Em 2022, o voto jovem foi decisivo para a vitória de Lula, muito mais movido pela rejeição ao estilo de governar de Jair Bolsonaro do que por adesão a um projeto de esquerda clássico. Tanto é que vimos a centro-direita e a direita avançar em eleições estaduais e no Congresso. O que os dados de 2025 indicam não é contradição, mas uma reconfiguração de prioridades.

Passado o momento de contenção, a insatisfação estrutural com o establishment e com as soluções tradicionais voltou a empurrar parte dessa geração para a direita. Hoje, é ali que está a estética da contestação, ancorada no discurso anti-sistema e na rejeição ao consenso institucional. É um cenário de forças centrífugas: quando o discurso de direita inflama, o da esquerda responde na mesma intensidade, retroalimentando um vácuo no meio do caminho.

O centro político brasileiro existe em números. Uma pesquisa Quaest de setembro aponta que 58% dos eleitores preferiam alternativas a Lula e Bolsonaro. Os partidos do Centrão dominam a Câmara e o Senado. No entanto, esse centro opera sem um projeto de País, movido por um mosaico de projetos de partido. Sem uma narrativa de futuro que preencha esse espaço, o eleitor acaba orbitando os polos, principalmente aqueles que oferecem uma estética de ruptura.

Nada disso ocorre no vácuo. Nos Estados Unidos, a eleição de 2024 marcou um ponto de inflexão: a vantagem democrata entre os jovens, que era de 25 pontos em 2020, derreteu para apenas 4. Como aponta uma análise do Ash Center (Harvard), essa “direitização” é alimentada por um colapso na fé institucional: apenas 27% da Geração Z americana “concorda fortemente” que a democracia é a melhor forma de governo, comparado a 69% dos eleitores com mais de 58 anos. Segundo o estudo, esses jovens não estão consumindo mais notícias, e sim absorvendo narrativas de influenciadores que oferecem uma conexão pessoal.

A ressurgência da direita global é alimentada por um desgaste das respostas econômicas oferecidas pelos governos moderados. Seja na gestão da imigração na Europa, ou na incapacidade de controlar o custo de vida nos Estados Unidos, ou no fracasso da segurança pública no Brasil, o establishment político parece ter esgotado seu repertório.

Na França, o partido de direita Rassemblement National foi o mais votado entre os eleitores de 18 a 24 anos nas últimas eleições europeias, conquistando cerca de 32% dos votos. Na Alemanha, o partido AfD viu seu apoio entre os jovens dobrar, tornando-se o mais popular entre eleitores com menos de 30 anos em muitos estados.

Para o jovem brasileiro, o pessimismo é material. Cerca de 35% da Geração Z e dos Millennials acreditam que terão menos oportunidades do que seus pais. Quando o modelo atual não garante casa própria, renda estável ou ascensão social, a promessa de liberdade individual e redução do Estado deixa de ser teoria econômica e passa a soar como alternativa concreta.

Quando o contrato social não entrega, o jovem aposta na disrupção.

Um exemplo didático apareceu na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2024. Na Zona Leste, historicamente parte do cinturão eleitoral da esquerda, Pablo Marçal foi o mais votado em 14 das 20 zonas eleitorais no primeiro turno. Não foi um acidente estatístico. Ali, uma parcela da juventude trocou a esperança no Estado pela aposta anti-sistema. O recado foi simples: o modelo atual não está entregando nem o básico.

Estamos diante de um realinhamento em que a identidade política é moldada menos por grandes promessas coletivas e mais por ansiedade.

A juventude de 2026 é desconfiada e cética em relação às promessas institucionais. O desafio agora é entender se essa guinada representa um hiato provocado pela crise de representatividade, ou se estamos assistindo à consolidação de uma nova hegemonia cultural, com poder de redefinir o eixo da política nas próximas décadas.

Lucas de Aragão é mestre em ciência política e sócio da Arko Advice.

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