Após cumprir um roteiro turbulento em 2025, marcado por seguidas revisões das projeções e cujo grande vilão foi o agronegócio, o Banco do Brasil (BB) divulgou seu balanço do ano na noite da quarta-feira, 11 de fevereiro. E o resultado ainda deixa uma série de dúvidas sobre a sequência dessa trama.
O banco encerrou o ano com um lucro líquido ajustado de R$ 20,6 bilhões, o que representou uma queda de 45,4% sobre a cifra registrada em 2024 e o menor número reportado na última linha do balanço desde 2020.
Entre outubro e dezembro, o lucro líquido ajustado foi de R$ 5,7 bilhões, uma queda de 40,1% sobre o mesmo intervalo de 2024. Em contrapartida, a cifra cresceu 51,7% em relação ao terceiro trimestre de 2025 e veio acima das projeções compiladas pela Bloomberg, de R$ 4,02 bilhões.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) ficou em 12,4% no quarto trimestre, frente ao patamar de 20,8%, um ano antes. E, no consolidado de 2025, o índice foi de 11,4%, contra 21,4%, em 2024, resultando no menor nível de rentabilidade entre os bancos listados.
Em outra linha, a margem financeira bruta teve queda de 0,8% no ano, para R$ 103,1 bilhões, apesar de registrar uma expansão de 5,4% no trimestre, para R$ 27,8 bilhões. Em 2025, o índice de eficiência – que mede o custo de um banco para gerar receita – foi de 27,7%, ante 25,6%, no ano anterior.
“Esse foi o ano mais desafiador da minha história de 26 anos no Banco do Brasil”, afirmou Tarciana Medeiros, CEO do Banco do Brasil, em call com analistas na manhã desta quinta-feira, 12 de fevereiro. “E 2026 também será desafiador. Mas dentro de um desafio que já aprendemos como fazer.”
Parte relevante desse desafio, a carteira de crédito totalizou R$ 1,29 trilhão no ano, um avanço de 2,5%. Em pessoas físicas, o crescimento foi de 7,6%, para R$ 356,9 bilhões. Já em pessoas jurídicas, a expansão foi de 0,6%, para R$ 455,1 bilhões. E, no agronegócio, de 2,1%, para R$ 406,1 bilhões.
Já a inadimplência acima de 90 dias consolidada foi de 5,17%, contra 4,51% no terceiro trimestre de 2025 e 3,16% no fim de 2024. Na carteira de agronegócio, o patamar foi de 6,09%, o que representou um aumento de 125 pontos base em relação ao trimestre anterior.
Em outra ponta, o custo de crédito registrou um salto de 73,5% em 2025, para R$ 61,9 bilhões, refletindo aumento do risco de crédito no decorrer do ano. Já a provisão para perdas de crédito foi de R$ 66,3 bilhões, contra R$ 37,3 bilhões no segundo semestre.
Na trilha de uma onda de recuperações judiciais, o segmento do agronegócio, com grande exposição na carteira de crédito da instituição, foi justamente o terreno mais fértil para os desafios enfrentados pelo banco e o grande ofensor dos resultados e revisões ao longo do ano.
Para tentar começar a reverter esse cenário, um dos passos recentes nesse campo foi o lançamento, no âmbito da MP 1.314, do BB Regulariza Agro, programa interno para alongar prazos, reforçar garantias e renegociar operações com base na capacidade de pagamentos dos produtores.
O banco destacou que o programa, lançado no fim de outubro, soma R$ 35,5 bilhões contratados em novas operações, com mais de 21 mil clientes beneficiados em um volume total de 29 mil contratos originados até dezembro de 2025.
Segundo Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar do BB, as renegociações se concentraram mais em clientes adimplentes, com parcelas a vencer. Com foco em avançar na adimplência nos próximos trimestres, a tese foi dar mais fôlego a esse produtor, permitindo que ele reequilibrasse sua capacidade de pagamento.
“E o maior destaque aqui é o fato de que, em muitas dessas operações, a garantia era apenas o penhor da safra”, disse o executivo. “E agora, 72,9% dos contratos já são com garantia de alienação fiduciária, o que nos dá uma segurança maior na perspectiva de receber e de, depois, se for o caso, de cobrança.”
Essa também foi a abordagem adotada em outros segmentos na originação de crédito. O banco ressaltou, por exemplo, que 63% das operações para micro e pequenas empresas foram ancoradas em fundos garantidores.
“Vamos seguir com muita disciplina na execução e na gestão estratégica do crédito”, afirmou a CEO do BB. “E crescer com qualidade, rebalanceando o mix da carteira para buscar rentabilidade em linhas cada vez mais seguras, suportados por um framework robusto de garantias.”
Em pessoa física, uma das linhas destacadas foi o Crédito do Trabalhador, na qual o banco originou R$ 13 bilhões em 2025. “Esse é um negócio que conhecemos e sabemos fazer. Esse desembolso veio em uma carteira completamente nova e é um exemplo forte dessa abordagem”, complementou.
A executiva também destacou que outro segmento prioritário será o perfil de alta renda, com bandeiras como a Estilo. Além de ressaltar a meta de crescer mais de 20% no plano das assessorias de investimentos.
Projeções
O balanço e essas e outras prioridades foram acompanhadas da divulgação do guidance para 2026. O BB projeta, por exemplo, um lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões no ano, com um avanço de 4% a 8% na margem financeira bruta.
Na carteira de crédito, o crescimento previsto é de 0,5% a 4,5%. Em pessoa física, a faixa vai de 6 a 10%, enquanto, na pessoa jurídica, o range é de queda de 3% a um avanço de 1%. E, no agro, um recuo de 2% a uma expansão de 2%.
Em relatório enviado a clientes, o Itaú BBA ressaltou que o BB trouxe um conjunto fraco de tendências nas projeções para o ano e pontuou que a visibilidade da trajetória de recuperação do banco permanece incerta, reiterando a recomendação neutra e o preço-alvo de R$ 22 para a ação.
“A faixa resultante de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões para o lucro líquido ajustado (ROE de cerca 12% no ponto médio) está ligeiramente abaixo das expectativas do mercado e indica uma recuperação lenta. Estamos posicionados no ponto mais baixo, com R$ 22 bilhões no lucro”, escreveu o banco.
Na mesma linha, os analistas do BTG Pactual destacaram que, embora o quarto trimestre tenha mostrado algum progresso, seguem enxergando a estabilização do balanço do BB como um processo gradual, com incertezas residuais nas tendências de crédito, especialmente no agronegócio.
“Dito isso, com as ações subindo cerca de 15% no acumulado do ano e sendo negociadas a cerca de 0,75x o último preço sobre valor patrimonial, o valuation só seria atrativo em um cenário de recuperação mais rápida do ROE, o que não é nosso cenário base”, afirmou o banco, com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 25 para o papel.
Depois de abrirem o dia com alta de mais de 5%, as ações do BB subiam 2,49% por volta das 12h30, cotadas a R$ 25,53. O banco está avaliado em R$ 145,8 bilhões.


