Homens ainda resistem à ideia de assumir o controle da fertilidade Sebastian Kaulitsky/Science Photo Library Quase metade das gestações no mundo não são pl Homens ainda resistem à ideia de assumir o controle da fertilidade Sebastian Kaulitsky/Science Photo Library Quase metade das gestações no mundo não são pl

Empresas preparam três novos anticoncepcionais masculinos. Mas como convencer os homens a tomá-los?

2026/02/13 02:18
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Homens ainda resistem à ideia de assumir o controle da fertilidade — Foto: Sebastian Kaulitsky/Science Photo Library Homens ainda resistem à ideia de assumir o controle da fertilidade — Foto: Sebastian Kaulitsky/Science Photo Library

Quase metade das gestações no mundo não são planejadas, segundo dados de 2018 da revista científica The Lancet Global Health. Diante desse cenário, empresas e pesquisadores trabalham para ampliar as alternativas de contracepção masculina, hoje limitadas a preservativos e vasectomia. Quatro produtos estão em fase avançada de testes e podem estar disponíveis comercialmente antes de 2030, segundo informações da Bloomberg.

O momento marca uma virada no desenvolvimento de anticoncepcionais para homens. Desde os anos 1950, quando surgiram as primeiras pesquisas paralelas à criação da pílula feminina, os efeitos colaterais e a falta de recursos impediram que qualquer método masculino chegasse ao mercado. Agora, startups de biotecnologia apostam em tecnologias que prometem segurança e reversibilidade.

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Mercado bilionário sem produtos

Análises de mercado apontam um potencial de vendas entre US$ 40 bilhões e US$ 200 bilhões globalmente para novos anticoncepcionais masculinos, segundo estudo de 2016 publicado pela Springer Nature. Só nos Estados Unidos, entre 7 e 15,5 milhões de homens formariam o público-alvo inicial, conforme levantamento de 2024 na revista Contraception.

Apesar dos números atrativos, grandes farmacêuticas permanecem cautelosas. A explicação está na ausência de precedentes: nenhum anticonceptivo masculino foi aprovado por agências reguladoras, não há histórico de vendas bilionárias nem dados consolidados sobre aceitação do consumidor.

"Há interesse, mas todos hesitam em ser o investidor principal", declarou Heather Vahdat, diretora executiva da Male Contraceptive Initiative, à Bloomberg. A organização sem fins lucrativos trabalha com orçamento anual de US$ 1,6 milhão e está estruturando um fundo que combine capital filantrópico e privado para superar a lacuna de financiamento inicial.

Três abordagens tecnológicas

As soluções em desenvolvimento seguem estratégias distintas. A YourChoice Therapeutics, sediada em São Francisco, criou uma pílula que interfere no acesso da vitamina A aos testículos, impedindo o amadurecimento dos espermatozoides sem alterar hormônios. A química Gunda Georg, da Universidade de Minnesota, passou anos pesquisando compostos que bloqueassem a produção espermática de forma segura até encontrar a molécula que originou o medicamento YCT-529.

Os ensaios de fase 2 na Nova Zelândia demonstraram queda consistente na contagem de espermatozoides sem problemas de segurança, segundo Akash Bakshi, cofundador da empresa. A companhia recebeu US$ 15 milhões em 2022 e estima precisar de US$ 100 milhões adicionais para concluir os testes.

Outra linha de pesquisa utiliza hormônios. O gel NES/T, desenvolvido pelos Institutos Nacionais de Saúde americanos, combina substâncias que suprimem espermatozoides com testosterona sintética para manter funções como massa muscular e libido. Aplicado diariamente no ombro, o produto concluiu a fase 2 em 2024 e foi licenciado para a Contraline, que pretende solicitar aprovação regulatória em 2028.

A terceira categoria envolve dispositivos médicos: implantes de hidrogel injetados no canal que transporta espermatozoides dos testículos. Funcionam como barreiras físicas, sem interferência hormonal. O Adam, da Contraline, dissolve-se naturalmente após dois anos. Já o Plan A, da NEXT Life Sciences, permanece até uma década e pode ser revertido com injeção de bicarbonato de sódio. Ambos requerem procedimento de inserção inferior a 20 minutos.

Os dispositivos médicos enfrentam processos de aprovação menos complexos que medicamentos, favorecendo chegada mais rápida ao mercado. A NEXT projeta comercialização do Plan A para 2027, e a Contraline espera aprovar o Adam em 2029.

Homens dispostos a assumir responsabilidade

Pesquisas recentes desafiam o pressuposto de que homens rejeitariam métodos contraceptivos. Levantamento de 2024 mostrou que mais de 60% dos homens em sete países estariam dispostos a experimentar novas opções no primeiro ano de disponibilidade. Empresas relatam listas de espera com dezenas de milhares de voluntários para testes clínicos.

Andrew Butler, participante dos ensaios do gel NES/T, relatou ao Bloomberg apenas leve ganho de peso como efeito colateral. Sua principal preocupação era evitar que o gel entrasse em contato acidentalmente com a parceira antes de ser absorvido.

Após a decisão judicial que anulou o direito federal ao aborto nos Estados Unidos em 2022, as vasectomias aumentaram 20% no país, evidenciando maior engajamento masculino com planejamento familiar, segundo estudo publicado em 2024 no Canadian Urological Association Journal.

Na França, mais de 20 mil homens adquiriram o Andro-Switch, anel de silicone que eleva a temperatura dos testículos para reduzir produção espermática. O dispositivo, ainda sem certificação regulatória, demonstra demanda existente mesmo para produtos não aprovados oficialmente.

Obstáculos regulatórios e financeiros

Agências reguladoras não estabeleceram padrões claros para aprovação de anticoncepcionais masculinos, criando incerteza para empresas. Os critérios são rigorosos porque os produtos destinam-se a homens jovens saudáveis para uso prolongado.

A Male Contraceptive Initiative lidera comitê que busca criar diretrizes para ensaios clínicos iniciais. A fase de comentários públicos terminou no final de 2024, e a organização agora consolida as contribuições.

O financiamento permanece como maior desafio. Estudo de 2023 revelou que apenas US$ 23 milhões dos US$ 165 milhões arrecadados no setor dois anos antes vieram da indústria farmacêutica. A maior parte dos recursos provém de fontes públicas e organizações sem fins lucrativos.

"Poderia haver várias empresas multimilionárias neste setor", afirmou Harrison Valner, sócio-gerente da Seaside Ventures e investidor na NEXT Life Sciences, ao Bloomberg. Ele compara o momento ao surgimento dos medicamentos GLP-1 para perda de peso, que criaram mercado bilionário rapidamente.

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