Homens ainda resistem à ideia de assumir o controle da fertilidade — Foto: Sebastian Kaulitsky/Science Photo Library
Quase metade das gestações no mundo não são planejadas, segundo dados de 2018 da revista científica The Lancet Global Health. Diante desse cenário, empresas e pesquisadores trabalham para ampliar as alternativas de contracepção masculina, hoje limitadas a preservativos e vasectomia. Quatro produtos estão em fase avançada de testes e podem estar disponíveis comercialmente antes de 2030, segundo informações da Bloomberg.
O momento marca uma virada no desenvolvimento de anticoncepcionais para homens. Desde os anos 1950, quando surgiram as primeiras pesquisas paralelas à criação da pílula feminina, os efeitos colaterais e a falta de recursos impediram que qualquer método masculino chegasse ao mercado. Agora, startups de biotecnologia apostam em tecnologias que prometem segurança e reversibilidade.
Análises de mercado apontam um potencial de vendas entre US$ 40 bilhões e US$ 200 bilhões globalmente para novos anticoncepcionais masculinos, segundo estudo de 2016 publicado pela Springer Nature. Só nos Estados Unidos, entre 7 e 15,5 milhões de homens formariam o público-alvo inicial, conforme levantamento de 2024 na revista Contraception.
Apesar dos números atrativos, grandes farmacêuticas permanecem cautelosas. A explicação está na ausência de precedentes: nenhum anticonceptivo masculino foi aprovado por agências reguladoras, não há histórico de vendas bilionárias nem dados consolidados sobre aceitação do consumidor.
"Há interesse, mas todos hesitam em ser o investidor principal", declarou Heather Vahdat, diretora executiva da Male Contraceptive Initiative, à Bloomberg. A organização sem fins lucrativos trabalha com orçamento anual de US$ 1,6 milhão e está estruturando um fundo que combine capital filantrópico e privado para superar a lacuna de financiamento inicial.
As soluções em desenvolvimento seguem estratégias distintas. A YourChoice Therapeutics, sediada em São Francisco, criou uma pílula que interfere no acesso da vitamina A aos testículos, impedindo o amadurecimento dos espermatozoides sem alterar hormônios. A química Gunda Georg, da Universidade de Minnesota, passou anos pesquisando compostos que bloqueassem a produção espermática de forma segura até encontrar a molécula que originou o medicamento YCT-529.
Os ensaios de fase 2 na Nova Zelândia demonstraram queda consistente na contagem de espermatozoides sem problemas de segurança, segundo Akash Bakshi, cofundador da empresa. A companhia recebeu US$ 15 milhões em 2022 e estima precisar de US$ 100 milhões adicionais para concluir os testes.
Outra linha de pesquisa utiliza hormônios. O gel NES/T, desenvolvido pelos Institutos Nacionais de Saúde americanos, combina substâncias que suprimem espermatozoides com testosterona sintética para manter funções como massa muscular e libido. Aplicado diariamente no ombro, o produto concluiu a fase 2 em 2024 e foi licenciado para a Contraline, que pretende solicitar aprovação regulatória em 2028.
A terceira categoria envolve dispositivos médicos: implantes de hidrogel injetados no canal que transporta espermatozoides dos testículos. Funcionam como barreiras físicas, sem interferência hormonal. O Adam, da Contraline, dissolve-se naturalmente após dois anos. Já o Plan A, da NEXT Life Sciences, permanece até uma década e pode ser revertido com injeção de bicarbonato de sódio. Ambos requerem procedimento de inserção inferior a 20 minutos.
Os dispositivos médicos enfrentam processos de aprovação menos complexos que medicamentos, favorecendo chegada mais rápida ao mercado. A NEXT projeta comercialização do Plan A para 2027, e a Contraline espera aprovar o Adam em 2029.
Pesquisas recentes desafiam o pressuposto de que homens rejeitariam métodos contraceptivos. Levantamento de 2024 mostrou que mais de 60% dos homens em sete países estariam dispostos a experimentar novas opções no primeiro ano de disponibilidade. Empresas relatam listas de espera com dezenas de milhares de voluntários para testes clínicos.
Andrew Butler, participante dos ensaios do gel NES/T, relatou ao Bloomberg apenas leve ganho de peso como efeito colateral. Sua principal preocupação era evitar que o gel entrasse em contato acidentalmente com a parceira antes de ser absorvido.
Após a decisão judicial que anulou o direito federal ao aborto nos Estados Unidos em 2022, as vasectomias aumentaram 20% no país, evidenciando maior engajamento masculino com planejamento familiar, segundo estudo publicado em 2024 no Canadian Urological Association Journal.
Na França, mais de 20 mil homens adquiriram o Andro-Switch, anel de silicone que eleva a temperatura dos testículos para reduzir produção espermática. O dispositivo, ainda sem certificação regulatória, demonstra demanda existente mesmo para produtos não aprovados oficialmente.
Agências reguladoras não estabeleceram padrões claros para aprovação de anticoncepcionais masculinos, criando incerteza para empresas. Os critérios são rigorosos porque os produtos destinam-se a homens jovens saudáveis para uso prolongado.
A Male Contraceptive Initiative lidera comitê que busca criar diretrizes para ensaios clínicos iniciais. A fase de comentários públicos terminou no final de 2024, e a organização agora consolida as contribuições.
O financiamento permanece como maior desafio. Estudo de 2023 revelou que apenas US$ 23 milhões dos US$ 165 milhões arrecadados no setor dois anos antes vieram da indústria farmacêutica. A maior parte dos recursos provém de fontes públicas e organizações sem fins lucrativos.
"Poderia haver várias empresas multimilionárias neste setor", afirmou Harrison Valner, sócio-gerente da Seaside Ventures e investidor na NEXT Life Sciences, ao Bloomberg. Ele compara o momento ao surgimento dos medicamentos GLP-1 para perda de peso, que criaram mercado bilionário rapidamente.


