Agosto de 2025, Ilhas Baleares, Espanha. No auge do verão europeu, turistas endinheirados zanzavam pelas ruas de Mallorca, quando a ação teve início. A bordo de um automóvel alugado com documentos falsos, os ladrões tomaram o relógio de um homem de meia-idade. Tudo muito rápido. Em uma hora, um novo ataque — e mais uma peça de luxo surrupiada.

Dias depois, a quadrilha já estava em Ibiza. A mesma estratégia, os mesmos alvos. Em menos de uma semana, cinco relógios de alto padrão, avaliados em € 525 mil (cerca de R$ 3,2 milhões), foram arrancados dos pulsos de seus donos. No início de fevereiro, dois suspeitos foram presos em Londres e um terceiro acabou detido em Barcelona.

Os ataques aconteceram em duas das ilhas mais badaladas do Mediterrâneo, mas poderiam ter ocorrido em qualquer balneário ou cidade do mundo: nunca como agora a alta relojoaria atiçou tanto a cobiça dos criminosos.

Só no ano passado, 10 mil peças foram incluídas na plataforma The Watch Register, um banco de dados global com o número de série de relógios de luxo roubados ou desaparecidos —  ao ritmo espantoso de uma peça por hora.

Para se ter ideia da escalada do crime, é uma quantidade 30% maior do que a anotada em 2024. As consultas ao sistema também aumentaram —  29%, com mais de 280 mil relógios pesquisados no período. E o número de joalherias, casas de leilão e revendedores cadastrados na The Watch Register saltou 42%.

Desde sua fundação em 2017, em Londres, a plataforma já catalogou cerca de 114 mil relógios — com um valor estimado de £1,7 bilhão (R$ 12,1 bilhões, aproximadamente).

Entre as 850 marcas registradas, a mais visada pelos ladrões é a Rolex, com 51% das anotações feitas em 2025. Mas há peças da Cartier, TAG Heuer, Omega, Audemars Piguet, Patek Philippe, Breitling, IWC, Jaeger-LeCoultre… se é relógio e é de luxo, os gatunos estão de olho.

Ao seguir a lógica do luxo, operando a escassez para despertar o desejo, as grandes casas relojoeiras estimulam o mercado de usados.

Desde meados de 2018, os preços dos relógios usados das grifes mais sofisticadas cresceram em média mais do que o dobro do índice S&P 500, conforme levantamento realizado pelo Boston Consulting Group em parceria com a WatchBox.

Assim, alguns modelos são tidos hoje como ativos dos mais promissores. Os valores médios dos Rolex, por exemplo, aumentaram mais de 550% entre 2010 e 2025, saltando de US$ 2 mil para quase US$ 14 mil, nos cálculos da estadunidense Bob’s Watches, uma das maiores plataformas de revenda do mundo.

Avaliado em US$ 24 bilhões em 2023, o mercado global de relógios de luxo usados deve atingir US$ 45 bilhões até 2030, evoluindo a uma taxa de crescimento anual composta de 9,2%, informam os analistas da consultoria Grand View Horizon. E, no topo dos mais comercializados, estão de novo os modelos da Rolex, responsáveis por quase metade do valor total transacionado.

Ao aumentar a liquidez, a previsibilidade de preços e a circulação internacional das peças, o comércio de segunda mão facilita o crime organizado. Com cotação amplamente conhecida e compradores espalhados pelo mundo, não é difícil converter um item roubado em dinheiro.

Avançado em ritmo acelerado, atualmente, o tráfico de relógios de luxo começa a se aproximar em valores do mercado clandestino de obras de arte, movimentando cerca de US$ 2 bilhões por ano. E a tendência é de ascensão.

Afinal, relógios são pequenos e fáceis de transportar. Um Rolex ou um Patek Philippe pode ser carregado no bolso ou até no pulso sem ser percebido — a logística para contrabandear um Picasso, por sua vez, é muito mais complexa e chama muito mais atenção. Assim, os relógios cruzam fronteiras com fluidez e agilidade.

Um Rolex a bordo de uma Lamborghini

A preocupação com o comércio ilegal é tanta que, de uns tempos para cá, algumas seguradoras estão criando apólices específicas para relógios — que antes eram cobertos na cláusula de “bens pessoais” de um seguro residencial, como mostra reportagem do jornal The New York Times, de setembro de 2025.

Um levantamento realizado pela empresa de análise de mercado Industry Research ilustra o movimento à perfeição. Se em 2023, o mercado mundial de seguros de joias, no qual os relógios de luxo se incluem, girou US$ 9,8 bilhões, em 2033, deve ultrapassar US$ 18 bilhões.

“Esse aumento é atribuído a fatores como o crescente número de indivíduos com alto patrimônio líquido e a maior incidência de roubos e perdas de joias”, lê-se na apresentação do estudo. “E as seguradoras estão respondendo a essa demanda oferecendo apólices mais abrangentes e personalizáveis.”

Na Jewelers Mutual Insurance Company, sediada em Wisconsin, nos Estados Unidos, os contratos focados em relógios já somam quase 20% de todas as apólices.

Até a pandemia de covid-19, os ladrões de relógios de luxo se dedicavam a invadir sobretudo as boutiques. Hoje, os criminosos adotam o chamado snatch-and-grab. Em bom português, “arranca-e-corre”.

Em um sábado de maio de 2024, um empresário de 64 anos circulava pela Avenida Faria Lima, em São Paulo, a bordo de sua Lamborghini, quando um assaltante de moto tomou-lhe o Rolex. O homem ainda tentou perseguir o assaltante, mas foi em vão. O ladrão fugiu levando consigo o relógio de R$ 200 mil.

Nem tudo, porém, é só má notícia. No ano passado, a The Watch Register conseguiu identificar 1,34 mil peças roubadas ou perdidas, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. É o equivalente a cinco peças por dia, metade delas perdidas, no máximo, há um ano. Para tanto, é importante ter o número de série do relógio — #ficaadica.

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