A juíza federal dos Estados Unidos Cynthia Rufe ordenou que o governo do presidente do país, Donald Trump (Partido Republicano), volte a expor uma mostra sobre escravidão que havia sido retirada de um museu no Parque Nacional Histórico da Independência, em Filadélfia, na Pensilvânia. A decisão foi emitida na 2ª feira (16.fev.2026), depois de a cidade processar o governo federal pela remoção dos painéis expositivos do parque sem consulta prévia.
Segundo a CNN, a decisão judicial de Rufe citou o romance distópico “1984”, de George Orwell, publicado pela 1ª vez em 1949. A magistrada escreveu o seguinte: “Como se o Ministério da Verdade em ‘1984’, de George Orwell, agora existisse, com seu lema ‘Ignorância é Força’, este Tribunal deve determinar se o governo federal tem o poder que alega ter –de dissimular e desmontar verdades históricas quando tem algum domínio sobre fatos históricos. Não tem”.
A disputa teve início em janeiro, quando grandes painéis de exibição foram retirados da Casa do Presidente. O espaço museológico preserva a história do local onde viveram os presidentes George Washington (1789-1797) e John Adams (1797-1801), 1º e 2º presidentes dos EUA, respectivamente. A cidade, então, processou a administração federal logo depois, argumentando que o governo tinha obrigação legal de consultar a Filadélfia antes de ordenar as alterações.
Indicada pelo ex-presidente republicano George W. Bush (2001-2009), Rufe baseou sua decisão no fato de que o Congresso aprovou uma legislação que “especificamente limitou” a autoridade do Departamento do Interior para “alterar ou controlar unilateralmente” o parque.
“O governo pode transmitir uma mensagem diferente em outro lugar se assim o desejar, mas não pode fazê-lo na Casa do Presidente até que siga a lei e consulte a cidade”, afirmou a juíza.
O Departamento do Interior informou à CNN em comunicado na 3ª feira (17.fev) que discorda da decisão e planeja recorrer.
O presidente do Conselho Municipal da Filadélfia, Kenyatta Johnson (Partido Democrata), celebrou a decisão em um comunicado publicado nas redes sociais. “A história negra é história norte-americana, e não deixaremos Trump apagar nossa história”, escreveu. O governador da Pensilvânia, Josh Shapiro (Partido Democrata), havia criticado anteriormente a remoção da exposição, acusando a Casa Branca de “branqueamento” histórico.
O governo Trump vem intensificando esforços para remover de instituições culturais materiais que conflitem com as visões do presidente antes do 250º aniversário dos Estados Unidos em 4 de julho deste ano.
Em março de 2025, Trump assinou um decreto acusando a administração anterior, de Joe Biden (Partido Democrata), de promover uma “ideologia corrosiva”. No texto, ele ordenou que o secretário do Interior removesse conteúdos que depreciassem “inadequadamente norte-americanos do passado ou do presente”. Eis a íntegra do decreto, em inglês (PDF – 91 KB).
Desde então, a Casa Branca iniciou revisão dos museus e exposições do Instituto Smithsonian para eliminar o que considera propaganda anti-EUA. O instituto é federal e administra museus, centros de pesquisa e o Zoológico Nacional.
“O povo norte-americano não terá paciência com nenhum museu que seja reticente quanto à fundação da América ou que fique desconfortável em transmitir uma visão positiva da história norte-americana –uma que seja justificadamente orgulhosa das realizações e do histórico do nosso país”, escreveram funcionários da Casa Branca ao Smithsonian em dezembro.
No ano passado, a ACMB (Comissão Americana de Monumentos de Batalha) retirou uma exposição que comemorava as contribuições de soldados negros da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e destacava a discriminação que enfrentaram.
A CNN informou que entrou em contato com a Casa Branca e com a prefeita da Filadélfia, Cherelle Parker (Partido Democrata), para comentar a decisão judicial, mas não havia obtido resposta até o momento da publicação.


