“Não quero mais falar, quero ficar em silêncio”, diz o personagem Antônio depois de um perturbador monólogo de uma hora, no fim da peça O Motociclista no Globo da Morte, em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo.
O ator Eduardo Moscovis, de 57 anos, continua sentado na mesma cadeira, a luz não sofre qualquer alteração, e uma longa quietude toma a sala por minutos. O silêncio só é quebrado quando o primeiro espectador arrisca bater palmas, seguido por uma avalanche de aplausos para Moscovis.
A peça, escrita por Leonardo Netto e dirigida por Rodrigo Portella, traz a história de Antônio, um matemático avesso à violência, no começo de uma tarde que deveria ter sido como qualquer outra.
Ele sai para almoçar em um bar perto de casa. Antônio já conhece todo mundo ali: o dono, Zeca, e os funcionários, como a garçonete Rita. O boteco está vazio, ele escolhe um prato e avista dois sujeitos recém-chegados, dispostos a chamar atenção. Eles pedem alto uma, duas cervejas, e Antônio se incomoda com as piadas que fazem.
A bola de neve da inconveniência cresce e, em pouco tempo, os dois clientes ofendem Rita. Antônio não disfarça a indignação. Ele é racional, pouco dado a impulsos. Segue-se um outro ato de violência inominável. Antônio reage, e tem que prestar depoimento. O palco parece uma delegacia ou um tribunal, e a plateia, o escrivão ou o júri.
O Motociclista no Globo da Morte é o auge da maturidade de um ator que soube fazer as escolhas certas em quase quatro décadas de trabalho. Moscovis despontou como galã da Rede Globo no começo dos anos 90 com beleza, talento e, como ficaria claro, vocação para administrar as duas qualidades a seu favor.
Na televisão, brilhou nas novelas Mulheres de Areia (1993), Por Amor (1997) e O Cravo e a Rosa (2001). As peças Eles não Usam Black-Tie (2001), Norma (2002) e Tartufo (2004) projetaram o bonitão que se saía bem nos palcos. Mesmo sobrando pouco tempo, deu as caras nos filmes O Que É Isso, Companheiro? (1997) e Bela Donna (1998).
Em 2006, encerradas as gravações da novela Alma Gêmea, um fenômeno de audiência, Moscovis rejeitou a renovação de um contrato de três anos com a Globo. “Eu me sentia inquieto, incomodado, queria fazer personagens cômicos, minisséries das onze da noite e acabava escalado para papéis parecidos nas novelas,” justifica.
Às vésperas de ser pai pela terceira vez, Moscovis se organizou financeiramente e avisou à emissora que a despedida não significava um adeus. “Pode ser que daqui a pouco volte a bater na porta de vocês, mas, agora, prefiro ser honesto e seguir outro rumo,” disse aos chefes.
A virada profissional lhe deu poder de escolha e, se ganhou menos dinheiro, conheceu uma satisfação inédita. Ele levantou a produção da peça Por uma Vida Menos Ordinária, em que interpretou um viciado em cocaína, e surfou nas incipientes séries de televisão – uma marola ali por volta de 2010 que acabaria se tornando uma onda no mercado.
Com a carreira nas mãos, protagonizou um monólogo (O Livro), um clássico (Um Bonde Chamado Desejo) e uma comédia de esquetes (Duetos) no teatro e só voltou a uma novela da Globo em 2015 com A Regra do Jogo, num contrato temporário. Hoje, está no ar na trama das 21h, Três Graças, acumulando gravações no Rio e a peça em São Paulo, e aguarda os lançamentos do filme Querido Mundo, dirigido por Miguel Falabella, e da série Fúria, da Netflix, em que representa um ex-lutador de MMA.
O salto de Moscovis foi percebido no próprio audiovisual, quando ele interpretou um policial abusivo com a mulher (vivida por Camila Morgado) na primeira temporada da série Bom Dia, Verônica, dirigida por José Henrique Fonseca e exibida pela Netflix em 2020.
O trabalho, marcado pelo realismo e a tensão psicológica, rendeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor ator de televisão. “Foi um personagem difícil de desenhar e conviver de tão tóxico que era”, conta. “Algumas mulheres da equipe deixavam o set durante a gravação incomodadas com as atitudes do personagem.”
A gênese da violência é o combustível de O Motociclista no Globo da Morte. Raras vezes um monólogo, ainda mais em uma encenação tão limpa e despida de recursos, propicia ao espectador a chance de formar tantas imagens na cabeça. O único ícone entregue pelo diretor é a presença de Moscovis na pele de Antônio, homem comum, com ar de galã mas capaz de um ato bárbaro.
“É um texto que trata de um comportamento masculino que a gente abomina, mas propõe uma reflexão sobre o quanto estamos tão agressivos que nem percebemos,” explica o ator.
As demais cenas são instintivamente elaboradas pelo público. Todos enxergam o ambiente do bar, os demais personagens e, principalmente, os detalhes da chocante represália do protagonista, um efeito difícil de ser alcançado com base apenas na narração.
O diretor Rodrigo Portella é um dos grandes encenadores do País, talvez o maior na atualidade. Levam sua assinatura os sucessos Tom na Fazenda, em cartaz há nove anos, Ficções, o monólogo da atriz Vera Holtz, e Um Ensaio sobre a Cegueira, montagem do Grupo Galpão. Leonardo Netto, além de dramaturgo, é ator, o que potencializa a sensibilidade para escrever personagens.
O que garante um resultado tão equilibrado, porém, é a espetacular performance de Moscovis, indicado aos principais prêmios no Rio de Janeiro, onde a peça começou sua trajetória em setembro.
Como em uma equação, ele controla a voz e entrega as ações cronometradas em uma técnica que envolve a plateia. A precisão é alcançada pela soma da experiência de um artista que representou diversos personagens em diferentes veículos – algo que dificilmente alcançaria se tivesse priorizado a linguagem das novelas.
Moscovis faz com que os espectadores, mesmo os mais pacíficos, como Antônio, reflitam sobre o que fariam em uma situação parecida. Tamanha identificação só se estabelece quando há cumplicidade do público com um grande ator.
Foto: Catarina Ribeiro
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